• Para quando o medo chegar
  • Para quando o medo chegar


    Eu sei que você não vai entender. Não agora. Tem coisas que a gente só entende depois que passam.

    E, acredite em mim: passa. Mas até passar parece que não vai passar nunca.

    Isso vale como um acalanto despretencioso, mesmo porque autoajuda não funciona e eu não consigo sequer ajudar a mim mesma, para ser franca, mas, em todas as vezes em que senti medo – e não foram poucas – procurei uma leitura que me fizesse sentir um pouco menos desesperada.

    Eu não estou falando do medo de avião ou de filme de terror (o que a essa altura deve ser óbvio). Falo dos medos triviais, aqueles comuns, que até parecem pequenezas mas que, na verdade, são os monstros embaixo da nossa cama depois que viramos adultos.

    Falo do medo de ficar sozinho porque às vezes parece que ninguém na face da terra será capaz de nos compreender. Do medo de crescer – um medo válido, aliás, porque não há nada mais doloroso que crescer – do medo de enfrentar a vida, do medo de conhecer as pessoas e descobrir que são podres, o medo de conhecer a si mesmo e descobrir… (bem, você não precisa ler isso agora).

    Estou falando daquele medo que dá quando você vê a vida diante de si e, mesmo que por um segundo, você a compreende completamente e isso é assustador (há algumas coisas que nunca devemos compreender), daquele medo de precisar decidir coisas imensas quando você não consegue decidir nem o que quer assistir na Netflix.

    Aquele medo de a vida passar a gente não se dar conta, um medo tão comum quanto chá mate com limão em Ipanema.

    Sossegue, beba um café quentinho, chore por algumas horas – dias, se for preciso – e faça a única coisa que se pode fazer em todos os momentos da vida: seguir em frente. Depois que a gente soluça, caleja e se cansa da autopiedade, é o que resta. E a gente sempre consegue, porque é isso ou enlouquecer.

    O mundo não anda fácil e nem digerível, diria Martha Medeiros, e tá todo mundo meio esquisito mesmo. Essa sensação de que nada faz sentido não é privilégio teu, porque, sejamos honestos: o que, afinal, faz algum sentido?

    A vida é isso, um dia nos salva e no outro nos mata, um dia abraça e no outro chuta a nossa cara. E é isso que dá medo: A vida. Descobrir-se vivo. Tomar consciência. A consciência é que coloca os nossos pés na realidade, e, algumas vezes – para não dizer sempre – a realidade é uma grandessíssima filha da puta.

    A vida bate, é verdade, mas um dia desses ela sorri e fica tudo bem até a próxima crise. E quando não houver mais nada, ainda haverá a única coisa que nos salva da vida: a arte (sim, a arte, você errou).

    ass-nathalie


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