• Obrigada aos caras que partiram meu coração
  • Obrigada aos caras que partiram meu coração


    Sabe, tempo é uma coisa meio louca: num dia a gente pensa de um jeito, no ano seguinte o mundo já mudou. Dizem que o tempo é o Senhor da Cura, não tiro a razão de quem diz isso. Mas acho que ele não cura, ele põe a gente em movimento, ele muda a nossa perspectiva, ele faz a gente atravessar a rua e enxergar as coisas de um modo novo. A ferida continua, é a gente que aprende a lidar com ela.

    Pensando nisso, hoje tiro toda a roupa e encaro as feridas de frente pro espelho. Completamente nua. Eu comigo mesma. Chego ao cúmulo da intimidade com os toques, passo os dedos pelo alto relevo, contorno os buracos mais recentes. Melhor não cutucar ferida aberta, melhor não tirar a casca. Antes, tinha medo de olhá-los – a gente sempre tem. Hoje, eu os encaro. Encaro cada pessoa que passou por aqui e me abandonou. Encaro cada homem que deixou uma marca sentimental visível na pele. Encaro e enfrento as mágoas dos términos como nunca tinha encarado antes a parte que parecia feia em mim. Mas não tem nada de feio aqui, meu corpo conta histórias, minha mente as projeta pra que eu me lembre.

    Não, calma. Não sofri nenhum tipo de violência. Se tivesse sofrido, eles teriam respondido do jeito certo, do jeito que as leis devem cuidar. São marcas imaginárias, sabe? Você deve saber, você deve ter algumas que só consegue enxergar no banho, na ida pro trabalho em dias cinzas, no café com fones de ouvido, nos momentos em que a cabeça vaga e te traz pra perto dos caras que partiram seu coração. Acontece sempre comigo e eu os revisito.

    Hoje em dia, não sinto mais raiva. Entendo o ciclo: a gente vai magoar alguém um dia, assim como vai ser magoado. Fui magoada mais do que gostaria, me acostumei com mais partidas do que queria, os saguões se tornaram minha segunda casa. Eram tantos aeroportos, tantas rodoviárias, tantas plataforma de trem que eu até minto pra deixar a lembrança mais bonita. Na verdade, não chegou a ter despedida. Uma dia, cada um deles chegou e disse que não dava mais, não queria mais, não me amava mais ou não disse nada, simplesmente sumiu. E dá-lhe martelada com prego enferrujado em mim, porque era assim que eu sentia: eu tava sendo pregada mais uma vez. É desse tipo de marca que eu falo.

    Com o tempo, entendi que era necessário. Que pessoa nenhuma passa em vão se mexe na gente. Que nenhum deles foi tempo perdido e todos me ensinaram um pouco sobre o próximo. Que a cada homem que me machucava ou me partia ao meio, eu conhecia mais sobre mim e sobre o tipo de cara que eu não queria por perto. Eu soube ser mais gentil e amar um pouco melhor, entendi um pouco mais sobre como me despir e me despedir, respeitei meu corpo e minha alma. Não foram eles que me ensinaram, fui autodidata nesse quesito. A gente sempre é. Não são os outros, os homens, que ensinam algo. São as experiências.

    Depois de tudo, depois de cada fim, eu passei a entender melhor o meu corpo. Eu entendi melhor a minha alma. Deixei o lado de fora pra fora e olhei pra dentro. Você nem imagina como é corajoso quando se põe o dedo em torno da cicatriz, quando se encara o fato. Quando nós mesmas colocamos um ponto final na história. Vez ou outra, a gente entende que eles não mereciam a gente. Vez ou outra, não era mesmo pra ser. Mas sempre é uma visão diferente das coisas. Por isso, me encaro sem medo na frente do espelho. No fim das contas, eles vão passar e a minha companhia será essa do reflexo.

    Tem uma lenda antiga que diz que o caos é necessário. Depois das explosões e da bagunça, é natural que nós encontremos alguma ordem. É exatamente assim que eu me sinto hoje: renascendo. Graças a cada um dos caras que partiram meu coração.

    daniel


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