• Você não mora mais em mim
  • Você não mora mais em mim


    Quando ele foi embora, deixou pra trás a maior bagunça. Pedaços de coração espalhados por todo lado, palavras desencaixadas soltas no ar, potes e mais potes de dúvidas, poças de lágrimas no chão, músicas perdidas em ondas sonoras que quando acertavam meus ouvidos doíam que só. Amontoados de medos e angústias e caixas cheias de vontades e de lembranças felizes, que vez ou outra eu encontrava no meio de tudo isso e agarrava com força e receio de que se perdessem novamente.

    Entendi que era hora de arrumar a casa. Logo eu que sempre me encontrei melhor na minha própria desordem do que na organização alheia, decidi fechar as portas pra tentar colocar tudo em seu devido lugar, sem que ninguém pudesse atrapalhar ou se tornar uma boa desculpa para que eu empurrasse tudo isso pra debaixo do tapete e continuasse a viver como se estivesse tudo bem.

    Percebi que bagunças como essa não deixam espaço pra visita, já que o único lugar livre dela era aquele do lado direito da cama, que poucas vezes ele ocupou, mas que de alguma forma sempre teve direito sobre e que, talvez por isso, fez sua ausência se tornar tão presente ali.

    Foi então que vi, que além de recolher e jogar fora os restos de uma parte de mim que precisou ser esmigalhada para que, quem eu realmente sou finalmente saísse da casca, eu também precisava exorcizar alguns fantasmas. O dele e os meus, que abriguei por anos sem ao menos saber e que também geravam o caos, quando resolviam desenterrar traumas e fraquezas e em seus buracos, jogar todos os meus planos de uma só vez. Isso quando não decidiam mudar a decoração, usando tons de carência e de insegurança, sem entender que definitivamente não são nuances que combinam comigo.

    Me dediquei a secar as poças de lágrimas e a consertar as goteiras que as causavam, para que não se formassem mais. Comecei a pintura, escolhendo meticulosamente somente as cores alegres que a vida proporciona e em seguida instalei as prateleiras onde repousei as boas lembranças, que não devem ser perdidas ou arquivadas junto com os pequenos – porém pesados – envelopes de raiva e rancor. Esses, aliás, pouco a pouco vou queimando e mandando as cinzas descarga abaixo.

    Apliquei o feng shui, pra fazer fluir bem as energias e passei a usar os espelhos para observar o quanto mudar por dentro melhora o que vemos por fora. Substituí-los por pessoas como uma forma de refletir os defeitos que nos recusamos a aceitar que fazem parte de nós, nunca mais.

    Os travesseiros agora tem cheiro de flor-de-laranjeira e não mais de saudade. Voltaram a ser o apoio de uma cabeça cheia de sonhos e ideias e não mais se afundam com o peso de uma consciência que vivia pesada, por sempre carregar consigo a culpa de não saber lidar com o que o resto de mim sentia.

    Meu toque final foi trocar as fechaduras e guardar as chaves com mais carinho do que antes e tendo em mente que o próximo à ganha-las precisa de fato merecê-las. Que traga consigo flores pra enfeitar e o desejo de fazer morada, no lugar do de passar uma noite, tomar café e partir.

    Também não dei nenhuma cópia pra ele, mas deixei que espiasse pela brecha da porta, que por hora ainda não foi fechada para sempre. Só que dessa vez, só o deixo entrar por ela se antes limpar os sapatos e aceitar que, apesar de ainda ter seu espaço reservado, precisa se esforçar para combinar com ele e não ao contrário.

    Porque afinal, agora ele precisa entender que se quiser, a gente pode até fazer bagunça no quartinho, mas que nunca mais vai zonear sozinho um coração com cheiro de tinta fresca e necessidade de ordem e sossego, pra poder voltar a bater, depois de tanto apanhar.

    ass-denise


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