• Seja homem, meu filho, seja o  homem que você quiser ser
  • Seja homem, meu filho, seja o


    homem que você quiser ser


    “Seja homem!”. Geralmente essa frase vem acompanhada de um tom de repreensão e cobrança de determinada postura e comportamento: não demonstre indícios de qualquer sinal de emoção, seja “forte”, seja um ~macho. Ainda bem que esse conceito arcaico está caindo em questionamento – e espero eu que em desuso. Essa semana mesmo, em seu programa matinal, Fátima Bernardes fazia uma enquete: você prefere o homem “moderno” ou “à moda antiga”? Ficava claro que o homem dito como “moderno” é aquele romântico e sentimental e que o “à moda antiga” seria o tradicional machão. Os homens entrevistados fizeram várias brincadeirinhas machistas super engraçadas só que não, mas, mesmo a discussão sendo rasa perto do que poderia ter sido abordado, é muito interessante que esse debate sobre o “novo homem” tenha chegado à televisão, num programa de alcance popular como esse. Afinal, o que é ser homem?

    A masculinidade nunca foi um conceito concreto. Assim como Simone de Beauvoir afirmou que “não se nasce mulher: torna-se”, o mesmo é válido para os homens. Há toda uma construção social do que é masculino/feminino traçada antes mesmo de nós nascermos: se for menino o quarto do bebê é azul, se for menina é rosa. Tudo o que entendemos por tipicamente feminino (“mulheres são vaidosas, não têm senso de direção e amam sapatos”) e tipicamente masculino (“homens não choram, não broxam e amam futebol”), não passam de conceitos pré-moldados para colocar mulheres e homens no lugar onde supostamente pertencem. Às mulheres cabe a etiqueta de ‘“frágil” e aos homens a de “durão”. São esses rótulos, herança de uma cultura machista, quem impõem como devemos ser e agir. Desde a emancipação feminina, há 40 anos, as mulheres já vêm questionando e derrubando as barreiras de gênero. Elas passaram a se sentir no direito de se mostrar por inteiro: ser fraca, mas também forte, dócil e agressiva, indecisa e decidida, aceitar ser essa metamorfose ambulante que todos nós somos dependendo do momento e situação. O caminho natural é querer se relacionar com homens que também sejam inteiros, que assim como elas não precisem mais reprimir aspectos da personalidade. É nesse cenário que a geração Y vem indagar o que é ser um homem.

    “Onde foram parar os machos?”, perguntou Rodrigo Constantino em sua coluna – na qual constantemente vomita atrocidades e exala chorume como se não houvesse amanhã: se você ainda não leu, não dê o google porque não vale o clique – em alusão “novo homem”. Constantino repudia esse conceito que surge na sociedade moderna porque, para ele, ser macho significa ser heterossexual e manter-se distante de qualquer vislumbre de sensibilidade que se assemelhe a uma “bicha afetada”. Esse ser “macho” só reforça os conceitos ultrapassados de masculinidade e nocivos a ambos os gêneros, resquícios do machismo. Em suma o texto é uma carta de repúdio à campanha “Homens, libertem-se”, um movimento propõe aos homens se depreenderem dos padrões sociais e serem livres para ser o que quiserem, sem que suas escolhas o tornem “menos homens” por isso. Posso broxar, posso falir, posso ser frágil, posso me cuidar, posso ser sensível, posso recusar brigar e posso não gostar de futebol são alguns dos tópicos que o manifesto defende. O projeto chama à reflexão sobre esse “novo homem” e também sobre as muitas formas pelas quais o machismo prejudica também os homens, independente de sua sexualidade (sim, homens também sofrem com o machismo). Afinal, a obrigatoriedade do serviço militar, a dificuldade conseguir a guarda dos filhos ou licença paternidade são heranças dessa cultura patriarcal que atribui aos homens o papel de macho que não pode demonstrar nenhuma característica atribuída ao sexo feminino, já que esse é considerado inferior – é daí que vem usar “gay” como um “xingamento” já que ser gay é ser um homem “defeituoso”: com características femininas.

    Como membro de uma família patriarcal do interiorrr conheço bem as pressões sociais que os homens da casa recebem, do tipo: “Já atingiu a maioridade? Então vamos levar esse menino pro puteiro pra tirar esse cabaço!”, “Ahhhh, como assim você não tá tomando uma cervejinha? Tem que tomar!”, “E aí, já tá dirigindo? Saindo pra zuar com a mulherada? Fica tranquilo que pra treinar qualquer bola serve!” ou “Quando você vai aparecer em campo pra bater uma bolinha? Nunca vi homem não gostar de futebol!”. É como se cada perguntinha dessa os empurrasse para se encaixar num modelo de homem fixo e restritivo. Estas restrições geram uma opressão pouco discutida porque é velada, aceita e naturalizada: parece tudo “normal” e quem não se enquadra na regra é que está “errado”. Por isso é importante que surjam discussões como essa, que abalem esses padrões pré-construídos, nos ajudem a enxergar o que muitas vezes não vemos, a nos libertar e a afirmar a nossa liberdade de ser apenas quem nós escolhemos ser.

    lais-1-1-1-1


    " Todos os nossos conteúdos do site Casal Sem Vergonha são protegidos por copyright, o que significa que nenhum texto pode ser usado sem a permissão expressa dos criadores do site, mesmo citando a fonte. "