• Vítimas do Machismo:  Quantas Mulheres Ainda Precisam Morrer?
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    Quantas Mulheres Ainda Precisam Morrer?


    Mais uma vez, a caça às bruxas do século XXI fez sua vítima. Bastou o intervalo de algumas semanas desde o caso Fran – a garota que teve sua vida destruída por um vídeo íntimo de treze segundos que vazou no Whatsapp – para outra mulher também ir pra fogueira. Só que, dessa vez, a consequência foi mais grave. A adolescente Júlia Rebeca, de dezessete anos, não suportou a pressão de ter que lidar com toda a repercussão, assédio, linchamento virtual e bullying e tirou a própria vida. O motivo de todo esse medo? Gostar de sexo. E isso faz com eu me pergunte: quantas mulheres ainda terão de morrer até que nos libertem da misoginia?

    Mulher gosta de sexo. Ponto. Qual é a dificuldade em entender isso? Por que é tão, mas tão difícil aceitar que a mulher pode sim gostar tanto ou até mais de sexo que o homem? Vivemos a ditadura silenciosa do machismo disfarçado de boas maneiras, de regras de condutas de como se deve comportar uma lady, uma moça direita de família e a “filha perfeita” que a Júlia Rebeca queria ser. É assim que o patriarcado encontrou uma maneira de suprimir, abafar e trancafiar a sexualidade feminina: não permitindo que mulheres que gostam de sexo tenham aceitação moral.

    Enquanto os homens (heterossexuais, diga-se de passagem) são incentivados a escancarar sua sexualidade – vide o orgulho familiar de quando o bebê descobre o pênis: “olha ele brincando com o bilauzinho!”, a pressão pra levar o adolescente de dezoito anos recém completos ao puteiro ou o incentivo à canalhice disfarçado de “cadê aS namoradaS?” – as mulheres sofrem um controle excessivo sobre a sexualidade. O patriarcado quer vigiá-las, quer que seu desejo seja trancafiado a sete chaves e o faz através da cultura do estupro e do slut-shaming.

    O patriarcado quer reprimir a sexualidade das mulheres, quer que elas escondam o absorvente no fundo do carrinho do supermercado, que cruzem bem as pernas na hora de se sentar, que não falem palavrão, que tenham medo de dar na primeira vez devido ao receio de serem taxadas de putas e vadias. O patriarcado não quer ~mulher direita~  fazendo ménage à trois ou perguntando  se você quer comer o cuzinho bem apertadinho dela, porque o patriarcado divide as mulheres em pra comer ou pra casar. As da primeira categoria não passam de objetos usados para satisfazer as vontades do macho dominante. O patriarcado quer garotas que digam ‘não’, garotas “difíceis”, bonitas e caladinhas para que possam cumprir o seu único papel social: o de enfeitar o mundo. Quer garotas lindas e mansas para que eles possam exercer seu poder e oprimi-las com cantadas nojentas (não, cantada não é elogio), passadas de mão e fiu-fius quando elas caminham na rua.

    Enquanto essa sociedade hipócrita, violenta e machista prevalecer, eu não sei mais quantas mulheres serão massacradas e culpabilizadas. Porque, nos casos citados, havia homens envolvidos também, mas homens que saem “impunes”, sem culpa, homens que tem o aval para exercer a sua sexualidade e por isso saem livres. Esquece-se do machismo que impera silenciosamente e culpam a ~falta de diálogo~ com os pais ou a tecnologia. Há sempre uma maneira de fechar os olhos aos anos de opressão feminina e lavagem cerebral misógina para limpar a barra do patriarcado. Como fez o ~especialista~ que analisou o caso da Júlia Rebeca na matéria acima linkada. Copio suas sábias palavras: “É importante que os pais estejam próximos dos filhos, saber das amizades, o que estão fazendo. Ter todo um acompanhamento. Não precisa entrar na intimidade, não tanto, mas ter um mínimo de conhecimento. O próprio adolescente vai entender que o que você, pai ou mãe, está fazendo, é por amor”. O suposto profissional também ressaltou sobre o risco de fazer vídeos com conteúdo íntimo. Ou seja, conversar com os pais e não filmar sua transa são os novos: não use saia curta, não beba, não saia sozinha à noite e blá blá blá. A solução do especialista para o caso é que a sexualidade da mulher, que já é reprimida e controlada, seja AINDA MAIS vigiada. Ninguém sugere uma mudança estrutural, ninguém aponta que a misoginia é o problema, ninguém quer educar e conscientizar as pessoas para que elas não se tornem machistas imbecis. É muito mais fácil culpar a falta de diálogo, a internet e, como sempre, a mulher.

    O Fantástico endossou o coro e exibiu uma matéria ontem sobre o assunto com o abre: “jovens mulheres filmam relações sexuais, confiam nos parceiros e acabam humilhadas por milhares de pessoas na internet”. Leia-se: a garota ingênua confiou num cara com quem tinha intimidade, a moça permitiu que ele fizesse a porra do vídeo, ele espalhou pra todo mundo desdenhando da confiança da menina e o problema é a menina que não se dá ao respeito. Além disso, ao invés de questionar a repercussão do vazamento do vídeo, o porquê do sexo ainda ser um tabu, o porquê de a mulher ainda ser reprimida, o porquê de vivermos numa sociedade misógina, o Fantástico resolveu listar regrinhas para as mulheres de como filmar sua transa sem ser pega. Novamente a responsabilidade e a culpa caem sobre o colo feminino.

    É por isso que, enquanto continuarem tacando pedra na Geni, na Fran e na Júlia Rebeca, mais mulheres ainda serão sacrificadas em nome da misoginia. Enquanto acharem um absurdo a mulher deixar claro que quer ter orgasmos, que quer sentar numa piroca, que quer fazer menáge à trois ou seja lá qual for o fetiche, novas Frans e Júlias sofrerão e serão queimadas. Enquanto a sociedade não aceitar que eu, mulher, sou a única dona do meu corpo, do meu desejo e do meu prazer, ainda seremos reféns do machismo que nos priva de exercer a nossa liberdade e de, simplesmente, viver em paz.


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