• Fragmentos do Machismo Camuflado de  Cada Dia
  • Fragmentos do Machismo Camuflado de


    Cada Dia


    Meio dia. Sol a pino. Mulheres pintadas de liberdade, o som estridente dos tambores do dois de julho. Eu poderia estar comemorando a Independência do meu estado, mas estava lutando pela minha. Quando me vi subindo uma ladeira quilométrica enquanto gritava que “a porra da buceta é minha”, pensei nos motivos pelos quais ainda é (muito) difícil ser mulher nos dias de hoje.

    Tive a resposta rapidamente, enquanto voltava para o carro, com a barriga à mostra e o corpo pintado. Na minha barriga havia a transcrição: “Meu útero é laico.” Na minha coxa estava pintado o símbolo feminista. Eu carregava um cartaz e andava lado a lado com outras duas mulheres. Tinha como não imaginar que eu estava em um manifesto feminista? Pra quem tem visão perfeita, não. Mas isso não impediu que alguns imbecis nos assediassem pelo caminho. Afinal, nossas coxas à mostra eram um convite.

    Sinto uma agonia inexplicável em pensar que a minha revolta não cabe nesse texto. Por todas as vezes que ouvi um carro diminuir a velocidade bem atrás de mim, enquanto eu andava na calçada usando roupa de ginástica. A cara de ódio com a qual eu olhava para eles não os intimidava, e nem me poupava das cantadas imbecis de autoafirmação. Não era um elogio. Machistas não são movidos pela admiração ou pelo desejo – eles são movidos pela necessidade de dominação. Revolta em pensar que muitas pessoas dizem que isso não é violência.

    Afinal, nós já temos o direito de trabalhar, embora muitas ganhem menos. Ainda nos aposentamos mais cedo! E a jornada tripla enfrentada pela maioria das mulheres não justifica isso. Nós podemos sair sozinhas, embora estejamos assumindo o risco de sermos estupradas, e depois culpadas por isso. “Ninguém mandou andar sozinha de roupa curta!”. Afinal, já existem delegacias especializadas em violência contra a mulher, embora muitas, ameaçadas por seus parceiros, não consigam denunciá-los. Reclamar do quê? Nossos movimentos feministas são permitidos, não são? Mas somos taxadas de “feministas mimimi que precisam de pau”, inclusive por algumas mulheres. Não há do que reclamar. Feminismo é frescura de quem não tem o que fazer. Coisa de mulher que não trepa, porque trepar com o homem é o que há de importante na vida. Nós temos o direito de expressar nossa sexualidade, mas transar no primeiro encontro é coisa de puta. Nós podemos explorar a nossa beleza como bem entendermos, mas precisamos estar sempre lindas para funcionarmos como objetos de decoração.

    Ser mulher no século 21 ainda é difícil porque o machismo, de fato, ainda não foi superado. E se querem saber eu acho uma merda essas mulheres que não se depilam e declaram guerra aos homens. Do mesmo modo, eu acho uma merda ainda maior tantas mulheres ainda considerarem o machismo natural. Serem coniventes com sua própria coisificação. Promoverem a repressão do próprio gênero ao fazerem parte de um grupo intitulado “mulheres conta o feminismo.” É um paradoxo não apenas triste, mas incompreensível. O que, afinal, pensam essas mulheres? Qualquer explicação possível me parece absurda.

    Eu luto pelo direito de sair sozinha, sim, e sem medo de ser violentada. Luto para não precisar selecionar minhas roupas através do olhar de violência do outro. Eu luto para ter o direito de me aceitar como eu sou, sem a necessidade de pré-julgamentos de ordem moral ou estética. Aliás, sem pré-julgamentos de ordem nenhuma. Eu luto para poder olhar docemente para um carro que diminui a velocidade atrás de mim, com a certeza de que o motorista quer, tão somente, uma informação. Eu luto para poder me desarmar. Pra não ter que ouvir que feminismo é inútil porque a igualdade de gêneros é indiscutível. Luto para não ver mais mulheres contra o feminismo. Eu luto – por mais incrível que pareça – pelo fim do feminismo. Para que ele se torne obsoleto diante da efetiva igualdade de gêneros, da qual, lamentavelmente, ainda estamos a anos luz de distância.

    Ser mulher no século 21 ainda é difícil, porque o machismo está camuflado em um lençol de pseudo-igualdade e moralismo barato. Porque ainda é necessário lutar, mas a maioria age como se não fosse. E seguimos lutando por um ideal que só nós enxergamos – e só nós podemos alcançar.


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