• Sombra e Água Fresca – Porque Todo Amor De   Verão Sobe A Serra
  • Sombra e Água Fresca – Porque Todo Amor De


    Verão Sobe A Serra


    Sabe aqueles enganos do universo, tipo os Mamonas Assassinas terem morrido precocemente num acidente de avião? Então, eu ter nascido em São Paulo foi um deles – bem menos trágico, mas foi. Aconteceu por falta de visão de futuro do cara lá de cima. Ou por extravio de bagagem na central das cegonhas. Ainda não sei bem o que foi, mas com toda a certeza do mundo houve alguma falha na logística divina. Acontece que, tendo nascido aqui, entrei no jogo. Apesar de não ser uma nova baiana, hoje me acostumei a passear na tua garoa. A ser parte do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas. A respirar a feia fumaça que sobe apagando as estrelas. E a não ter o direito diário a uma das maiores dádivas da natureza: a maresia.

    Não sei bem o que é essa tal de maresia. Só sei que ela carrega consigo um poder um tanto quanto afrodisíaco. Porque quem nasce na praia – ou quem decide viver nela – tem uma malemolência, uma sensualidade e um gingado que nós, paulistanos de escritório, jamais teremos – a menos que deixemos para trás nossas utopias de uma vida rica e nos contentemos com a realidade de uma vida feliz. Uma vida no sentido mais pleno da palavra, que nos possibilite viver em vez de apenas existir para superlotar metrôs, trens e ônibus. Uma vida que nos possibilite observar o sol se pôr no mar todo santo dia. E desfrutar ocasionalmente do prazer de uma cervejinha com os pés na areia. Mais do que isso, que seja um incentivo a nos desprender de tudo o que é material e nos contentar em estar de chinelo Havaianas e vestidinho de algodão numa roda de amigos, sem nos preocupar com o peso das bagagens, com a artificialidade das maquiagens ou com a ferocidade dos julgamentos.

    Quem mora na praia aprende a conviver com a diversidade – afinal, a praia é de graça. É democrática. Não tem catraca, não tem seguranças. O sol é o astro-rei, e ele não cobra sequer um centavo de couvert para dar um verdadeiro show pelo menos 300 dias por ano. Entra gente de boné, entra gente de regata. Entra moça rica, entra catador de lata. Entra quem veio de busão, entra quem veio dirigindo Porsche. Entra a farofada, entra o champanhe. Entra preto, entra branco. Entra branco que sai preto. Entra preto que sai mais preto ainda. E por mais que o seu intuito – como o meu – não seja se bronzear, a praia é um ambiente pra lá de interessante. Um verdadeiro laboratório de convivência – por mais que você esteja super entretido assistindo ao balanço das ondas, é “chá mate geladinho”, “sanduíche natural”, “olha o queijo coalho, olha o queijo coalho”, “açaí na tigela, açaí com granola”. Os milhões na sua conta bancária não impedem que você pegue carona na mesma onda de alguém com milhões a menos do que você.

    Na praia, acima de tudo, a gente ama. Ama dar um mergulho no mar, ama tomar uma caipirinha no quiosque ao final da tarde. Ama as garotas de Ipanema, ama os surfistas de Floripa. Ama as ladeiras de Olinda, ama o calçadão da Praia Grande – por que não? Ama o final de semana e ama até a segunda-feira, porque sabe que independente do dia da semana, as ondas ainda vão estar ali, azuis da cor do mar. Sabe aquele ditado que diz que amor de verão não sobe a serra? Bullshit. Balela. Mentira que paulistano inventou pra você não perder o foco no trabalho se lembrando daquela menina que você conheceu naquele samba na areia. Ou daquele menininho encantador que ajudou você a subir na pedra mais alta do Arpoador. Porque todo amor de verão sobe a serra, sim. Pode não subir de corpo presente, mas sobe no coração, esse infinito depósito muscular de amores.

    Se um dia eu pretendo morar na praia? Sem sombra de dúvidas. E se o Rio de Janeiro continua lindo? Sim. Só por causa de vocês.


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