• Até quando insistir? – A linha tênue entre a  atitude e a falta de amor-próprio
  • Até quando insistir? – A linha tênue entre a


    atitude e a falta de amor-próprio


    Todo mundo nasce com probleminha de fábrica. Não importa a cor, o credo, o sexo, a orientação sexual ou a classe social. Eu, por exemplo, nasci com uma assimetria facial danada e com 33 dentes na boca. Na verdade, nasci banguela, mas vocês entenderam. Tem gente que nasce com a coluna torta, tem gente que nasce vesguinho, tem gente que nasce com pé chato. RPG, óculos, bota ortopédica. Tem gente que nasce com deficiência auditiva, tem gente que nasce sem poder enxergar, tem gente que nasce com síndrome de Down. Vienatone, desenvolvimento dos demais sentidos, muito amor e carinho. E tem gente que nasce com falta de uma pecinha que não se vende no mercado, com uma lombriga que a medicina não pode curar, com um encosto que não há santo que resolva. É a falta de amor-próprio, o mais nocivo de todos os males.

    Aí o bonitinho cresce. Sem o hormônio do amor-próprio, mas ainda assim, cresce bonito, forte, jogando futebol, visitando os avós aos domingos e tirando 9,5 nas provas de matemática. Eis que vem a adolescência, aquela fase em que as meninas querem morrer de vergonha com o desenvolvimento dos peitinhos e os meninos ainda não sabem lidar com aquele pau que endurece até com as carícias do vento. E é aí que mora o perigo para os portadores do hipoamorpropismo, porque essa, geralmente, é a fase em que acontece também a primeira paixão. Arrebatadora, sorrateira, sagaz. Se bobear, ela entra na sua casa, entra na sua vida, mexe com sua estrutura e sara todas as feridas. Ainda por cima, sem você perceber. E aí, meu amigo, já é tarde. Como num passe de mágica, aquela moreninha de óculos da sexta série passa a habitar o seu pensamento, o seu prato de arroz e feijão do almoço, a água do seu banho e as plumas de ganso do seu travesseiro.

    É chegada a hora de você demonstrar a sua tão estimada atitude – já que absolutamente todos os manuais dizem que a característica mais admirável num homem é a atitude. Você passa perfuminho, uma borrifada atrás de cada orelha. Coloca aquele suéter azul marinho que a vovó diz que fica lindo em você. Penteia os cabelos pela primeira vez desde o começo do ano. Compra um botão de rosa – singelo, mas bonito – e escreve um cartãozinho, afinal, já lhe disseram que agrado sem cartão perde 70% da graça. Rosana, você é a menina mais bonita que eu já vi nos meus breves 13 anos de vida. Toda vez que você passa pelo pátio, segurando aquela pilha de livros, eu tenho vontade de te convidar pra sair. Agora que a coragem veio, encare o convite como oficial. Eu ficaria muito feliz em ir ao cinema com você. Ass.: Binho, 6ªA.

    Acontece que a Rosana leu o bilhete, agradeceu acanhada e virou as costas. Deve ser timidez – é o que dizem as revistas adolescentes, verdadeiros manuais de perpetuação de uma sociedade machista e patriarcal. Toda mulher fica acanhada, e rejeitar na primeira é importante para que ela não se desvalorize. Afinal, mulher tomar a atitude é um tanto quanto absurdo, meu filho. Aí você chega na Rosana mais uma vez – o que custa ser gentil, não é mesmo? A estratégia agora é outra: ela está estudando para a prova de ciências. Você se senta ao lado dela e começa a observar. Ela permanece lá. Quanto mais vai se aproximando, mais ela vai recuando. Sabe aquela história de dar um passo a frente enquanto o outro dá dois atrás? Então, é mais ou menos isso. Até que ela se sente ~acanhada~ mais uma vez, pega o material e vai estudar em outro lugar. Aí você pensa: pode ser que ela não estivesse muito bem-humorada hoje, ou que ainda esteja se fazendo de difícil. E tenta mais uma vez, porque é brasileiro e não desiste nunca. E mais uma. E mais outra. Até que a Rosana aparece namorando o cara mais feinho da sua classe. Sim, aquele de óculos, aparelho e tanta espinha que faz lembrar um Chokito.

    E a pergunta que não quer calar na sua cabeça é: o que ele tem que eu não tenho? Eu lhe digo que são pelo menos três coisas. Não, não é dinheiro. Nem um pau de 30 centímetros. Nem pacto com o capiroto. É bom senso, respeito ao outro e amor-próprio – a receita mais básica para uma vida amorosa saudável. Sim, só isso. Quem diria que é tão simples, não é mesmo?


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