• Redesenhando a Cadeia Alimentar –  Pelo Direito Feminino à Caça
  • Redesenhando a Cadeia Alimentar –


    Pelo Direito Feminino à Caça


    Quando ouvi pela primeira vez aquela voz rouca entoando um visceral e sonoro “ai, negão, TÔ COM O CU PEGANDO FOGO”, confesso que arregalei meus olhos castanhos e serenos e quase saí correndo pra buscar um extintor. De tão gutural, aquele grito funcionou melhor do que alarme de incêndio de prédio em chamas. Acreditei naquele fogo com a mesma fé milagreira – e admirável – de quem se cura de uma doença apenas rezando para o santo. Meu primeiro impulso foi fugir escada de emergência afora – um dos maiores pânicos da minha vida é o de eventualmente morrer carbonizada. Mas passado o choque inicial, convidei-me a uma breve reflexão e concluí que deixaria a chama me consumir dos pés à cabeça. Afinal qual o mal que um cu pegando fogo pode fazer a mim? Absolutamente nenhum.

    A bandeira feminista que exibe em letras garrafais a máxima “o corpo é meu e eu faço dele o que eu quiser”, levantada majoritariamente por meninas de classe média-alta e que têm a plena consciência da repressão e discriminação que o sexo feminino vem sofrendo desde que esse mundo é mundo, encontrou uma adepta num ambiente um tanto quanto hostil, eu diria. Entre cachorras e preparadas que se contentam com seus direitos de sentar, de quicar e de rebolar, uma Popozuda não admitiu ser simplesmente caça. Pegou sua bunda siliconada, seus cabelos e seus olhos artificialmente arianos e empunhou as armas de caçadora. Objetificada? Provavelmente. Silicone e afins são frutos de uma sociedade machista que padroniza as mulheres ao exigir que elas sejam bonitas e gostosas. Usar a expressão “dar” presume certo machismo ao trazer a noção de que toda vagina é um presentinho. Mas uma coisa a gente há de reconhecer: Valesca Popozuda deu uma boa agitada na “cadeia alimentar” em que os homens são os corajosos predadores e as mulheres, as indefesas presas.

    imagem via Ego

    Você pode não ouvir a música dela, assim como eu não ouço. Pode não gostar de corpos artificiais como o dela – tampouco eu gosto. Pode se assustar com a possibilidade de crianças e adolescentes de realidades sociais menos abastadas crescerem ouvindo “quero te dar, dá-dá-dá-dá-dá-dá-dá-dá-dá-dá” – eu também me assusto, apesar de confessar que dançava Na Boquinha da Garrafa quando tinha meus sete ou oito anos de idade. Mas em vez de simplesmente se orgulhar em ser um hater que gonna hate, chame a razão para um cafezinho com brownie, sente-se e coloque os fatos na mesa. Faz tanto tempo que você não se baseia em fatos que ficou difícil de tirá-los das trevas do seu armário? Não se preocupe, amigo, eu ajudo. Vamos lá.

    Sexta-feira passada você, macho-alfa, foi pra balada com a sua amiga, aquela louquinha que estudou com você no colegial. Dançaram até o chão, beberam uns bons drinks e suaram em bicas. Você pegou cinco meninas. De acordo com a sua avaliação, elas eram “excelentes” – como se mulher precisasse passar por teste de qualidade. Quando contou na rodinha de amigos, todos o parabenizaram. Aê, garanhão, foi assim mesmo que o papai ensinou! Mas e a sua amiga, como entra em cena? Infelizmente, interpretando um papel muito menos valorizado socialmente do que o seu. Por quê? Porque ela fez exatamente a mesma coisa que você: pegou cinco. Mas a ela coube a alcunha de vaca, vagabunda, mulher-que-não-se-dá-ao-respeito. Dessas que um homem sério jamais namoraria – afinal… Afinal o quê, meu amigo? O corpo é dela, e ela faz dele o que bem entender.

    Valesca Popozuda, ao dizer “vê se para de gracinha, eu dou pra quem quiser, que a porra da buceta é minha”, quer dar um recado para você, machão que procura uma mulher de princípios para se sentar no banco do passageiro, sorrir educadamente nos eventos sociais, lavar as suas cuecas sujas e, ao fim do dia, deitar na cama imóvel, só pra você enfiar a estaca nela. E se o recado não ficou muito claro, eu posso desenhar. O corpo de uma mulher não é bem público – ou seja, se você curtiu uma bunda no metrô, você não tem o menor direito de passar a mão ou de cutucá-la com o seu pau entumecido. Tampouco é propriedade particular de um homem – seja você pai, marido ou irmão ciumento, vai ter que saber lidar caso ela decida virar freira ou queira transar quando, onde e com quem tiver vontade. Em suma, o corpo de uma mulher é propriedade única e exclusiva dela, e o que ela faz dele não deve estar sujeito a nenhum tipo de julgamento. Simples assim.

    Não, eu não acho que Valesca mereça um lugar no Olimpo. Só acho que ela merece o seu respeito, assim como eu, a amiga louquinha do colegial, a vizinha que usa saias curtas, a colega de trabalho que pediu demissão para cuidar da família e a senhorinha da rua que acorda cedo todos os dias para ir à missa. Agora, se você acha que a única mulher correta, imaculada e digna de respeito no mundo é a sua mãe, sinto-lhe dizer que você está errado. Em primeiro lugar, porque você inevitavelmente é fruto de uma metida – sim, sua mãe já transou. E em segundo, porém não menos importante, porque ela pode ter acertado em inúmeras coisas, mas errou brutalmente ao ter lhe dado uma educação excludente dessas.


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