• Tem Alguém Fazendo Escolhas Por Você.  Duvida?
  • Tem Alguém Fazendo Escolhas Por Você.


    Duvida?


    Aí, dentro de você, mora mais alguém. Calma, não tô falando de lombriga nem tênia. Estou falando de um outro bichinho que ganhou vida desde a primeira vez em que, ainda no hospital, você chorou e sua mãe te pegou no colo com aquele calorzinho bom. E depois também quando você ficou roxo de gritar porque não queria aquela papinha de espinafre e seu pai foi lá e fez a sua preferida, de mandioquinha. E depois na escolinha quando o coleguinha tomou seu boneco da sua mão e a professora, alarmada com seus gritos, foi lá, tomou dele e entregou de volta pra você. Não foi sua culpa, mas todas essas atitudes são filet mignon pra esse bichinho que habita você, eu, a vizinha gostosa, o cara da mesa ao lado e todos os outros meros mortais: o ego.

    Desde pequeno, seu cérebro foi condicionado a pensar que você era o reizinho do mundo, afinal, bastava abrir o berreiro para que um monte de gente viesse satisfazer suas vontades. Estudos mostram que a fase mais crítica na vida de qualquer pessoa é até os 4 anos – nesse período a criança é como uma esponja e tudo o que ela absorve se cristaliza pro resto da vida. Ou seja, até os 4 anos de idade você teve vários motivos para pensar que a Terra girava em torno do seu umbigo, e não do Sol. Aí você cresce e descobre que seu reinado anda meio falido. Seus pais já não parecem mais seus servos, a professora da escola te trata igual aos outros 33 alunos, seu chefe não tá nem aí se você teve uma diarréia de virar do avesso noite passada – quer o relatório na mesa dele as 8 em ponto.  E então, como ex BBB que viu os minutos de fama se dissolverem por entre os dedos, você passa a vida inteira buscando ter novamente aquela sensação de que você é importante no mundo. Afinal, o bichinho do ego tem fome, e o roncar da barriga dele te força a buscar por alimento constantemente.

    Dias atrás, numa feira famosa de carros, pude ter a chance de observar claramente pessoas sendo guiadas por seus egos famintos. Um monte de homem se amontoava para ver os carros que eles provavelmente nunca teriam. Os carrões desejados eram sempre acompanhados de uma das suas combinações mais clássicas do mundo – mulheres gostosas. Elas aguentavam horas e horas em cima de um salto agulha, com um sorriso estampado na cara, de tempos em tempos dando uma viradinha para permitir que os visitantes fotografassem o melhor ângulo de suas bundas e peitos. Também haviam outras mulheres no evento – aquelas que acompanhavam os namorados. Elas também olhavam pra gostosas do pedestal com aquele pingo de inveja ao constatar os olhares e o queixo caído que o marido não podia disfarçar, independente de seus esforços. Longe dessa que vos escreve querer julgar a profissão e os gostos das pessoas – mas um olhar um pouco mais observador, além da crosta do óbvio, nos permite formar raciocínios interessantes.

    Tudo isso se sustenta pelo ego das pessoas, nada daquilo é verdadeiramente real. O cara fica babando pelo carro – não porque ele precisa daquilo, mas porque se imagina dentro dele e sabe dos efeitos que isso causaria nas pessoas. Vizinhos de trânsito o olhariam e pensariam “que cara foda, queria ser ele.” Pessoas automaticamente tirariam conclusão que ali dentro reinava um cara muito do rico. Isso faria com que o banco do passageiro pudesse se ocupado por mulheres gostosíssimas – daquelas que gastam todas as suas horas pra ficar bonita, porque querem justamente poder ocupar um posto daquele. E assim, instaura-se esse ciclo no quais as pessoas já não pensam mais direito, porque estão por trás da fumaça do ego.

    Por falta de reflexão, o cara não para pra pensar que ele vai ter que vender sua alma pro Sr. Diabo pra conseguir aquele objeto – vai ter que estudar algo que “dá dinheiro”, vai ter que se encaixar numa profissão da qual ele muitas vezes nem gosta, vai ter que passar 80% das horas do seu dia fazendo um trabalho que ele não escolheria se não tivesse colocado o dinheiro em primeiro lugar. Quando a vida dele estiver uma verdadeira merda, ele pelo menos terá grana para impressionar as pessoas das quais ele nem gosta. Mas o carro caro o eleva a um status desejável por muita gente – as pessoas o olham mais, o admiram mais, se aproximam mais dele, atendem suas vontades. Ele, finalmente se sente como aquela criança que detinha o poder de derramar uma lágrima e ser atendido por todos. Ele, finalmente, se sente amado.

    Essa situação se repete com a mulher gostosa. Andar na rua e não receber uma cantada é um baque grande demais na vida dela. Ela quer ser desejada, admirada, aplaudida, fotografada. Quer andar no carrão do cara do parágrafo acima porque estando ali, nas entrelinhas, ela sabe que as pessoas a verão como alguém foda, que mereceu um espaço do lado do cara foda. Acontece que o que a move nessa constante batalha por atenção é mais uma vez o ego faminto. Ela é daquele tipo de mulher que, se tiver uma disfunção hormonal e engordar 10 quilos, cai de cama numa depressão profunda, porque o externo é aquilo que a sustenta. Sem as aparências, ela não sabe mais o que fazer pra ser admirada e desejada de novo.

    Os exemplos acima foram usados para ilustrar uma história mas o fato é que todo mundo é tentado pelo ego. Assim como eu e você, todo mundo está tentando controlar, manipular, dominar, conquistar – por meio do dinheiro, do conhecimento, do poder, da política, da religião. Todo mundo está querendo mostrar pro resto do mundo que “eu sou o centro do mundo”. O ego, aquela casca protetora, era importante no início da vida porque a criança é indefesa, vulnerável, precisa mesmo de atenção e cuidado. Mas há que se ter muita cautela para não deixar que a casca do ego se cristalize. Quando fortalecido, o ego tomará decisões por você. Você vai passar sua vida inteira tentando, em vão, fazer com que as pessoas se rendam a você. Vai passar a vida inteira numa disputa, numa guerra. Você, por exemplo, não será capaz de amar ninguém de verdade porque, para amar de verdade, é preciso se render. O amor nos deixa mais humildes porque nos obriga a servir, em vez de sermos servidos. E talvez ele – junto com a consciência – seja um dos antídotos mais eficientes contra o ego que quer nos engolir a cada segundo.

    Eu, também no exercício de controlar esse monstrinho que me habita, finalizo essa coluna com palavras que não são minhas, mas de Adélia Prado: “Não se ama para ser recompensado. O amor é a sua própria recompensa. O amor é a morte do ego.”

     


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