• A perigosa gravidade de uma relação  sem pequenas gentilezas
  • A perigosa gravidade de uma relação


    sem pequenas gentilezas


    Imagine um balão (em formato de coração, de preferência) caindo, vagarosamente, em direção a pregos afiadíssimos. Por que eu quero que você imagine isso? Porque assim você conseguirá visualizar, de maneira extremamente clara, o que comumente ocorre com as relações feitas por gente que desconhece – ou que ignora – a importância dos pequenos sopros diários; sutis demonstrações de afeto e zelo que, quando observadas isoladamente – dissociadas de todas as demonstrações já realizadas e daquelas que ainda serão feitas -, podem até parecer incapazes de preservar a chama de uma paixão, mas que são, na verdade, a forma mais eficiente de se manter um relacionamento cheio de oxigênio e longe daquilo que é capaz de destruí-lo, para sempre.

    “Leve um pedaço de bolo pra ela!”, eu sugeri a um amigo que, do café em que estávamos, iria direto à casa da namorada. “Ela não gosta muito de bolo”, ele me respondeu. Insisti: “Então, leve um brigadeiro branco, chá de lichia, chocolate amargo, pão de queijo ou qualquer outra coisa que, além de fazê-la sorrir, certamente fará com que ela pense: ‘Como é bom ser lembrada!’ Ou ainda: ‘Adoro quando você faz essas coisas e, por meio de pequenas ações, demonstra que me conhece bem à beça!’” Meu amigo, porém, não levou nada pra moça, nem uma balinha de iogurte. E um pouco antes de deixar o café, ainda afirmou: “Eu não sou como você, irmão. Esse lance de agradinhos e surpresinhas não faz o meu estilo, definitivamente. E ela sabe disso!” Talvez, ela realmente saiba, no entanto, o que meu camarada parece não saber é que o balão que sustenta a relação dele logo colidirá contra pregos afiados se ele não der um soprinho aqui e outro ali.

    Por mais encantadora, apaixonante e memorável que tenha sido a parte do passado em que você a conquistou, parceiro, afirmo: sozinha, ela não será suficiente para dar fôlego ao presente e, consequentemente, aumentar as chances de a relação de vocês ter alguma perspectiva de futuro. A conquista não pode parar, nunca. E, quando escrevo “conquista”, não me refiro a faraônicos atos capazes de parar a Paulista e criar aglomerações de curiosos, como “Casa comigo?” em outdoors e helicópteros que cospem pétalas de rosas colombianas. Refiro-me a frequentes, pequeninas, sinceras, customizadas e pouco onerosas demonstrações de amor e de “Eu me importo com o cê”, como buscar uma manta no quarto sempre que a flagrar dormindo encolhida no sofá da sala. Ou sair de madrugada para comprar xarope, mesmo depois que ela mandar um rouco e mentiroso: “Não precisa sair, sério. Já tô bem!” Refiro-me à trufa com recheio de maracujá comprada no farol que, apesar da pequenez, certamente salvará o dia dela, e, enquanto estiver derretendo, ao menos, apagará da memória as palavras grossas recém-cuspidas por um chefe insensível que a trata como um número sem sentimentos. Refiro-me ao chinelo com estampa de pipoca que pode dar de presente numa data nada comercial porque sabe bem o quanto ela ama quando você demonstra conhecer as particularidades dela – e não porque ela precisa de um chinelo ou porque você não sabe o que dar. Refiro-me a faxina completa e ao jantar caprichado que pode fazer por saber que ela, assim que chegar pisar em casa – e perceber que o chão não tem mais gordura e que há algo mais gostoso do que Miojo para comer -, dará uma cambalhota de alegria, e se sentirá mais valorizada do que Heineken gelada entrando em um churrasco que só tem Kaiser quente. Refiro-me ao “Claro” animado que pode dizer, só para vê-la feliz, depois de ser convidado para um programa que você não gosta muito de fazer, mas que ela ama. Refiro-me a sutilezas atômicas, saca? Miudezas que acariciam a alma e mantêm o balão da paixão flutuando em meio a nuvens confortáveis e bem longe daquilo que pode explodi-lo.

    Outro dia, na praça de alimentação de um shopping, eu ouvi um pedacinho da conversa de um casal de velhinhos, e adivinha? Pesquei um lindo sopro, um entre muitos outros que, provavelmente, já devem ter rolado entre eles. O senhor chegou à mesa com um sundae na mão e, com cara de criança que acabou de receber uma medalha de ouro, disse à senhora: “Pedi sem castanhas e convenci a mocinha a calibrar na calda. Tá do jeitinho que você gosta, bem!” Lindo, não acha? Ou você ainda não percebeu o poder desfibrilador de pequenos carinhos? Pois perceba, por favor, antes que a paixão, que agora lhe parece imortal, perca para a gravidade daquilo que você não faz por achar que é mimimi, coisinha sem importância, frescura de homem exageradamente sensível.

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