• Meu Decote Não Te Dá Direitos –  Um Manifesto Contra a Cultura do Estupro
  • Meu Decote Não Te Dá Direitos –


    Um Manifesto Contra a Cultura do Estupro


    Saí do banho, abri meu armário, peguei um vestido branco. Vesti. Amarrei um lenço de oncinha na cintura, apanhei um casaco por precaução e saí de casa, certa de que não havia cometido nenhum pecado aquela noite, a não ser a gula de ter acabado com a pizza que estava sobrando na geladeira. Saí acompanhada de um amigo que meio mundo jura ser meu namorado, mas que eu juro com mais ênfase ainda que não tem absolutamente nada a ver e nem tem potencial para ter, por mais que eu quisesse. Tudo teria corrido maravilhosamente bem, não fosse o caminho de volta, que percorri sozinha. Mal ponho o pé na faixa de pedestres e passa um carro buzinando e falando uma meia dúzia de obscenidades. Grito logo um sonoro “vá se foder” – afinal, se você quer se fazer notado por mim, é muito, mas muito mais sensato você parar o carro antes da faixa pra eu atravessar do que passar buzinando e me olhando como se eu fosse um pedaço de alcatra a R$16,50 exposto na vitrine de um açougue.

    Muito bem. Na próxima faixa de pedestres, três homens seguiam a frente. Um deles, com idade suficiente para ser meu avô, olhava para trás com uma repugnante cara de desejo, cutucava os demais e falava algo que parecido com: “é gostosa de frente também, eu não disse?!”. Deixei essa passar – afinal, se ele precisa cutucar indiscretamente os amigos para se autoafirmar diante de qualquer estímulo visual que presencia na rua, é sinal de que a pipa do vovô já não sobe mais há pelo menos uma meia dúzia de anos. E por último, porém não menos escroto: metrô chegando à plataforma. Eu esperando do lado de fora, ouvindo pacificamente minha musiquinha no celular – com fones de ouvido, bom esclarecer – quando vejo, de dentro do trem, um homem se abaixando para enxergar o que estava do lado de fora, como se o vidro da janela lhe permitisse enxergar apenas uma parte do que ele estava interessado em ver. Já me senti suficientemente invadida, mas, para ele, olhar compulsivamente não bastava. Ele precisava externar o que sentia e soltou um “AÊ, GOSTOSA” seguido de alguma menção ao pau duro dele. Educada e pacífica que sou, controlei qualquer impulso de lhe dar um tapa na cara e me contentei em adverti-lo com um “olha o respeito”.

    Tudo isso por causa de um vestido branco. Um. Vestido. Branco. Tão comportado que eu já usei para trabalhar. Tão simples que é de puro algodão. Tão ingênuo que eu comprei na seção infantil de uma loja de departamento. Uma peça de roupa qualquer que, para a alegria de uns e para a tristeza de outros, não dá direitos a ninguém – a não ser a mim mesma, que tenho o direito de vesti-lo quando eu bem entender. Parece futilidade discutir por causa de um vestido. Mas não é. Jamais será enquanto as roupas e os comportamentos femininos legitimarem ações violentas masculinas. Meu caso é banal perto de tantos outros que acontecem diariamente por aí, mas simboliza perfeitamente o pensamento de uma sociedade que insiste em objetificar a mulher, a começar pela ~gentileza~ de nos cobrar menos pra entrar numa balada, porque festa boa é aquela com bebida e mulher de montão, não é mesmo? Os ranços do patriarcalismo ainda estão impregnados à nossa sociedade, e Simone de Beauvoir se revira no caixão a cada vez que alguém solta um ultraje como mulher minha é pra procriar, a mulher dos outros é pra desejar. A roupa que uma mulher usa e o comportamento social dela são reflexos do seu caráter. E se pôs um decote, não tem direito de reclamar caso venha a sofrer algum abuso.

    Esse tipo de pensamento, que pode até gerar umas risadas quando o alvo não é você, a sua irmã ou a sua mãe, é a justificativa que acusados de abuso sexual usam para reverter o jogo e culpar as vítimas. O vestido dela era curto. Ela estava bêbada. Mulher que se preze não anda na rua nesse horário. Sem o menor esforço mental, eu cito três casos do tipo. O diretor teatral Gerald Thomas só enfiou a mão por baixo da saia de Nicole Bahls porque ela é uma panicat que trabalha com o corpo e que estava com as pernas de fora. A jovem indiana que morreu após um brutal estupro coletivo na Índia em dezembro do ano passado sofreu a violência porque estava andando de ônibus à noite em Nova Delhi. E a norueguesa estuprada em Dubai quatro meses atrás chegou a ser condenada a 16 meses de prisão porque ingeriu bebida alcoólica na noite do estupro.

    Eu sei que sou a chata da igualdade dos sexos e sei que 40% de vocês acham que me falta uma boa pilha de louça pra lavar. Mas não, não falta. Quisera eu poder avançar a discussão e estar falando, neste exato momento, da educação sem gênero, que permite aos meninos brincar de boneca e às meninas brincar de carrinho sem qualquer atribuição de valor. Mas enquanto houver quem não entende que a diferença entre o homem e a mulher se restringe a fatores biológicos – e que o restante é imposição sociocultural – não há como colocar panos quentes sobre a discussão. Por enquanto, não vou propor que os homens fiquem grávidos – afinal, eles não têm estrutura hormonal ou reprodutora para tanto, e isso é um fator biológico. Mas também não vou coisificar, ridicularizar ou criminalizar qualquer mulher que queira fazer topless na praia – prática comum em diversos países da Europa – enquanto os homens andam impunemente sem camiseta por aí. Há uma diferença biológica? Há, é claro. Mas foi uma imposição puramente cultural que atribuiu uma carga sensual ao seio feminino e não o fez ao peitoral masculino. E assim como o meu vestido branco não lhe dá direitos, os peitos desnudos da mulher praieira também não dão. Enfiar as mãos nos peitos de qualquer uma que não tenha lhe dado permissão é abuso. A-B-U-S-O.

    Alguns me chamarão de feminista desvairada. De puta. De defensora dos fracos e oprimidos. De disseminadora de uma cultura imoral. Do que mais eles quiserem – afinal, a liberdade de expressão lhes dá respaldo, assim como garante aos humoristas o ~direito~ de fazer piadas racistas, machistas e homofóbicas. Mas é preciso fazer alarde: dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que, entre 2005 e 2010, os registros de estupro aumentaram 168% no Brasil. Muitos vão dizer que agora as mulheres têm mais coragem e mais condições de registrar o abuso. É provável que isso seja verdade – o que não diminui, de maneira alguma, a gravidade dos fatos. Outros dirão que, agora, até beijo na boca é considerado estupro. Dependendo do caso, é verdade também – e um beijo na boca à força não deixa de ser uma prática sexual não consensual. Ou você ainda vive naquele mundinho de mamãe onde tem tudo o que quer e não se conforma caso uma menina não caia nos encantos da sua pele macia, do seu pauzão de 30 centímetros ou do seu terno de um milhão de dólares?

    Aliás, bom termos falado em mamãe, porque ela tem um papel essencial nessa história. Não pode comer doce antes do arroz e feijão, ela disse. Não pode dormir sem escovar os dentes. Não pode jogar bola se não fizer lição de casa. Não pode desrespeitar os mais velhos – mas as mulheres pode, afinal, antes ter um filho garanhão do que ter um filho frouxo. Não pode chorar, porque é coisa de viadinho – homem que é homem bate, e não apanha. Não pode namorar a menina ~rodada~ – como bem nos ensinou a atriz global Marina Ruy Barbosa, “é muito difícil uma mulher rodada encontrar um cara legal. Só vai encontrar sapo”. Mamãe pode ter sido excelente em lhe prover carinho, mas foi melhor ainda em disseminar uma educação sexista, que vitimiza tanto o sexo masculino quanto o feminino ao ensinar que homens têm que ser fortes e mulheres têm que ser delicadas. Que homens têm que chegar e mulheres têm que fazer a passiva. Que homens têm que ser mais sexuais e mulheres têm que ser mais afetivas. Mesmo depois de tantos sutiãs queimados, de tantas manifestações feitas e de tantas gargantas arranhadas de tanto gritar. Mesmo depois de saber que o salário dos homens, no geral, é 13,75% mais alto do que o das mulheres, de acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Mesmo depois de se alarmar com um dado da ONU que diz que cerca de 70% das mulheres sofrem algum tipo de violência ao longo da vida. Só por serem mulheres. Por não terem sido agraciadas com uma benga. Por não carregaram altos níveis de testosterona nas veias. E você ainda acha que é só por vinte cent… Ops, por um duplo cromossomo X?