• Pelo Direito À Fossa – Coisas Que  Só A Dor Pode Ensinar Para Você
  • Pelo Direito À Fossa – Coisas Que


    Só A Dor Pode Ensinar Para Você


    Não existiria som se não houvesse o silêncio. Não haveria luz se não fosse a escuridão. A vida é mesmo assim: dia e noite, não e sim. Lulu tem razão. Mais do que as implacáveis leis da física, mais do que uma infalível regra de três, mais do que conselho de mãe com ares de advertência. A gente nasce chorando, e em questão de semanas já começa a esboçar o primeiro sorrisinho. A gente dorme, que é pra poder ter energia suficiente pra ficar acordado. A gente fala, que é pra suscitar a discussão e ouvir uma resposta. A verdade do mundo é que a vida é um grande jogo de opostos. E então, por que mesmo você acha que a sua existência deveria ser feliz do início ao fim?

    Sob a velha desculpa romântica de que o ser humano só colhe o que planta, a humanidade vai sendo enganada desde os tempos mais remotos. Você só faz o ~bem~. É um namorado exemplar, daqueles que percebem quando ela quer sexo selvagem ou quando ela só quer um abraço reconfortante depois de um dia pesado. É um funcionário dedicado, daqueles que têm senso de equipe, otimismo e criatividade pra tocar o barco mesmo em tempos de crise. É voluntário numa ONG que se dedica a fazer audiolivros para deficientes visuais. Como filho, nunca deu trabalho: era um bom estudante, digno de elogios nas rodas de professores e de mães dos colegas de classe; sempre se relacionou bem com os demais alunos; era um exímio escritor desde os seis anos de idade, daqueles prodígios que tinham contos publicados no jornalzinho da escola; tomou lá seus porres, mas que nunca passaram de esporádicos vômitos na balada. Aí a vida, maldita vida, vem pelas costas e lhe passa uma rasteira. Devido a um corte de gastos, a sua equipe sofre uma redução de 70% do contingente pessoal, e você, pobrezinho, perde o emprego. Seu pai, que sempre foi um poço de saúde, cai do telhado tentando arrumar a antena da TV e fica alguns meses em repouso. Sem qualquer explicação compreensível, sua namorada diz que está confusa e lhe dá um memorável pé-na-bunda – segundo ela, sem volta.

    E agora, José? Rezar pra Santo Expedito pra arrumar um novo emprego? Fazer a mandinga da casca de banana pra ex-namorada voltar com o rabinho entre as pernas? Proibir o pai de subir no telhado como ele fazia com você quando você era criança? Nada disso, meu amigo. Agora é entender que a vida é feita de altos e baixos. Que ~fazer o bem~ não é suficiente quando se trata de uma trama complexa em que você não é o único ator – ou você acha mesmo que o molequinho que cheira cola e pede moedinhas na Praça da Sé vive nessa condição porque foi mau na vida passada? Que a realidade não é tão simples quanto as historinhas infantis em que todos os acontecimentos históricos e cotidianos estão inseridos num jogo direto de causa e consequência – nem sempre a prisão imperará para a madrasta malvada, e o “felizes para sempre” não é regra na vida de casais que se amam. Enfim, que não há nada, absolutamente nada que você possa fazer para evitar as variações dessa verdadeira montanha-russa. Ou pede pra parar e descer, ou saiba que, estando a sua vida incrivelmente boa ou assustadoramente ruim, uma hora os ventos vão mudar de direção. E mais importante do que ter essa consciência é saber valorizar as alegrias do topo e as tristezas da base.

    Portanto, permita-se estar na fossa. Ouvir Tony Braxton no repeat durante cinco dias consecutivos, beber três garrafas de vinho tinto sozinho e dormir debruçado sobre a mesa da sala de jantar, ligar chorando pro melhor amigo no meio da madrugada, tomar aqueles banhos longos e escaldantes enquanto as lágrimas escorrem pelo rosto, desenhar um coração partido no vidro do box embaçado, fazer planos de fugir do Brasil. A fossa enobrece o homem, porque lhe mostra que ele é passível de fracassar. Que ele é só mais uma frágil e pequenina partícula nesse mundão de meudeus. Que ele não tem total controle sobre a própria vida. É só valorizando a tristeza que aprendemos algo com ela. Mais do que isso, valorizar a tristeza é o primeiro passo necessário para que possamos sentir a felicidade quase plena. E aí, quando a montanha-russa voltar ao glorioso topo, será a hora de sorrir, dançar, agradecer, pular, cantar, levantar os braços e… se preparar para a próxima derrocada. Porque ela é dura, certeira e implacável. E pagar uma propinazinha, meu amigo, dessa vez, não vai adiantar.


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