• Rejeição Sexual nas Relações -  Quando o Sexo Vira Moeda de Troca
  • Rejeição Sexual nas Relações -


    Quando o Sexo Vira Moeda de Troca


    Ele tentou trançar as pernas com a sua esposa e sentiu um movimento lento e escorregadio no qual ela se afastava do seu corpo. Imaginando que foi um movimento involuntário insistiu na investida fazendo um carinho no braço e um beijo no pescoço. A reação da mulher foi mais contundente e incisiva indicando uma declarada rejeição. Aquilo cortou seu coração já cansado de ter por perto uma mulher de olhos caídos e com pouco sorriso.

    Do outro lado, ela viu aquele homem que um dia amou, fez promessas de que iria ser seu cúmplice em todos os momentos, mas viu alguém absorvido por mil compromissos pessoais que se tornaram prioridade maiores que uma conversa, um carinho e um sossego. Eles ficam sozinhos no quarto escuro, hora da cutucada fria dele para o sexo que absolutamente não a motiva.

    Estão em mundo diversos, silenciados pelo desassossego de quem já não sabe mais se ama, admira, deseja ou é indiferente, odeia e tolera. Culpam a rotina, os filhos, o trabalho excessivo, o tempo, o trânsito, mas a realidade é que não sabem para onde o relacionamento caminhou. O sexo virou o termômetro para avaliar o quanto se amam. Ele busca o sexo como reafirmação de que está tudo bem, ela usa a falta de sexo para reivindicar outras coisas. Ele não consegue entender, ela não quer explicar.

    Quando ela se nega ao sexo e ele se restringe ao sexo, não entenderam que já existe muito silêncio e um grande abismo entre ambos. O fato do pau dele endurecer não quer dizer que quer intimidade real, ou seja, nessa tentativa frustrada do sexo rejeitado nenhum dos dois quer sexo de verdade, mas provar pontos de vista. Com o tempo ele talvez só queira provar para si que é um homem rejeitado mesmo fazendo muitos esforços para que tudo saia do melhor jeito. Ela quer levantar a bandeira da mulher incompreendida e deixada de lado.

    O ponto é que imaginaram que o casamento seria uma tarefa pronta – bastaria a cerimônia, o apoio dos padrinhos e a benção do padre. Fantasiavam que a proximidade facilitaria o sexo e tornaria cada noite numa oportunidade tórrida de desejo. Ignoraram que a relação é antes de tudo uma obra de arte feita a quatro mãos. Não qualquer mão, mas mãos cuidadosas como as de um jardineiro que sabe que cada planta e flor tem um tempo diferente para semear, cultivar e florescer. Como esse jardineiro fiel, um casal desconhece que o convívio a dois depende de que ambos sigam avançando como pessoa e realinhando cada detalhe do espaço em comum para não deixar mal-entendidos. Sempre com uma dose de ternura, flexibilidade e atenção.

    Muitas vezes bastaria dizer que precisa de um apoio para um dia difícil e que só uma massagem seria adorável. Além disso, assumir que não se pode seguir agindo como um ser humano indestrutível ou esperar um temperamento infalível de pessoas falíveis.

    Os casais superestimam o amor acreditando que ele pode tapar todas todas as suas brechas e completar todos seus vazios. Ignoram que a vida é um álbum que pode ficar incompleto e mesmo assim ter um valor inestimável.

    Se fossem cúmplices em suas falhas e parceiros de dias difíceis, conseguiriam olhar para o sexo além do sexo. De certo, deixariam o orgulho e o apetite sexual de lado e perceberiam que ali já não seria mais a hora de jogos de poder. Se compreendessem que o sexo começa muito antes da cama e termina muito depois o tesão, esse ato não seria uma meta a ser perseguida a qualquer custo. Se voltassem a olhar nos olhos, deixassem de lado suas exigências e oferecessem o seu melhor com empatia real, certamente o casamento teria um rumo muito diferente daqueles que ouvimos falar e que terminam desastrosamente.

    Talvez a falta de sexo seja só preguiça ou distração, mas só vão descobrir se é algo mais delicado ou suave se entenderem que o casamento é uma longa jornada em que não existe regra, obrigação um roteiro pronto. Casamento é descoberta. E exige um esforço diário e uma vontade gigantesca de fazer dar certo, mesmo diante de tantos desafios.