• Síndrome do Peter Pan –  Sobre Pessoas que se Recusam a Crescer
  • Síndrome do Peter Pan –


    Sobre Pessoas que se Recusam a Crescer


    Era uma vez Peter Pan, o intrigante menino “perdido” que vivia festivamente na Terra do Nunca, onde os garotos nunca envelhecem, todos os sonhos são possíveis e a felicidade iminente nas travessuras da jovialidade é algo absolutamente encantador. Seria emocionante e lírico se a famosa história que embalou tantos sonhos infantis do garoto em seu mundo mágico que não queria crescer, não fosse exatamente a mesma história do Luizinho, do Pedrinho, da Alessandra, da Joana, do noivo da sua prima, da sua melhor amiga de faculdade. A vida imitando a arte na mais nova onda do momento: a síndrome do Peter Pan.

    A psicologia reconhece a síndrome como um problema real e remete o termo aos comportamentos masculinos, contudo, não é muito difícil associar as características desta síndrome também aos “Peter Pans de saia” que perambulam por aí. Homens e mulheres de 30-40 anos se comportando como descompromissados adolescentes de 18. Ostentando uma rotina vazia de baladas diárias, porres épicos com frequência constante, tratando seus respectivos companheiros como meras aventuras, agindo de forma incoerente e imprudente sem se darem conta que os tempos agora, são outros.

     Tem aquele cara que deseja ser um executivo de sucesso, mas não abre mão de algumas festas para conseguir terminar a faculdade. Aquela garota que deseja um relacionamento sério, contudo se recusa a abrir mão de certos comportamentos que simplesmente não condizem com essa posição. Existe ainda o marido que deixa a esposa em casa e vira a noite na farra com amigos, ou a mulher do escritório ao lado que almeja uma casa na praia, mas prefere gastar todo seu dinheiro com leviandades; sem contar as milhares de pessoas no mundo que acham que traição é sinônimo de diversão. Aventuras desenfreadas talvez seja o carro chefe desta síndrome e juntamente com toda a vida desregrada, com toda a concepção distorcida de certo e errado, muitas vezes vem também, perdas irreparáveis que só serão devidamente sentidas quando nada mais se tem a fazer. Perde-se dinheiro, oportunidades, pessoas e acima de tudo: tempo.

    O fato é que a vida da gente é toda feita de fases. A gente experimenta o mundo e o mundo experimenta a gente desde a infância que é pra na hora que o universo cobra uma posição centrada a gente saiba qual a atitude correta a ser tomada. Talvez por isso seja tão importante viver cada uma dessas fases, desde brincar de bonecas até loucuras inenarráveis de faculdade, da forma mais intensa e proveitosa possível, sem pular etapas, sem se privar de erros. Jovens que não se permitem viver com todas as letras, se tornam pequenos adultos de roupa social. Porque quando a gente vive o que tem que viver, no momento exato da vida que tem que viver, a transposição de ciclos se torna absurdamente mais fácil. Crescer se torna leve, simplesmente porque a etapa anterior não tem mais sentido. De fato seria perfeito viver apenas de jogar bola no campinho, empinar pipa na praia, ficar bêbado com os amigos, seguir todos os impulsos de beijar aquele cara gato na balada enquanto o namorado está trabalhando, mas chega uma hora que sobrevoar a realidade cansa, machuca os outros, machuca a gente, e colocar os pés no chão deixa de ser uma opção e se torna uma necessidade.

    Infelizmente não dá pra se ter 20 anos o resto da vida. Crescer não nos dá muitas escolhas e definitivamente não é uma tarefa fácil. Juntamente com as rugas vêm as contas pra pagar, a profissão que exige cada vez mais ambição, o casamento com a pessoa dos sonhos, e tudo isso precisa ser valorizado caso contrário pode não existir uma segunda chance de se fazer direito. O tempo passa, o ponteiro do relógio corre numa velocidade impressionante e só nos resta apressar o passo, acompanhar o ritmo das mudanças, senão corremos o risco de não só ficar para trás, como também de perder parcelas deliciosas desse novo ciclo que pede passagem.

    Melhor do que saber quando parar é saber a hora de seguir adiante. Ficar estagnado em determinado ponto da história, preso para sempre na Terra do Nunca, sem progredir, sem se dar a chance de descobrir o que há por detrás da porta por onde todas as crianças um dia deram adeus ao mundo da fantasia para adentrar de pés firmes na realidade, é perder inclusive, a oportunidade de ser feliz ao lado de alguém.

    Peter fez uma escolha, e nela Wendy se perdeu. Assim como uma infinidade de experiências que apenas deixar de ser criança poderia lhe proporcionar.

    “Wendy: Há muito mais…

    Peter: O que? O que mais está lá?

    Wendy: Não sei. Acho que tudo se torna mais claro quando a gente cresce…”

    Que as pessoas se permitam acompanhar o fluido rio dos anos, se percam menos na trajetória da vida aproveitando cada pequena etapa da forma mais inesquecível possível e sejam finalmente capazes de vislumbrar a felicidade e a maturidade como um inteiro, não como duas metades separadas por todo um reino de meninos perdidos.