• Eu Não Quero Ser a Mulher da Sua Vida
  • Eu Não Quero Ser a Mulher da Sua Vida


    Não, eu não quero. E já deixo declarado o meu desinteresse por essa sua mania – e a mania de muitos – em me culpar por qualquer futuro errado que venha trair seus planos. Eu não quero esse peso todo do título ideal porque me dá dores de coluna e a minha postura sofre com isso todos os dias. Não, eu não quero carregar o estigma da importância taxada no peito. Enquanto algumas mulheres diriam que isso as torna relevantes, e importantes, e valorizadas. Eu. Eu mesma. Eu digo que isso não faz a menor diferença pra nós dois.

    Não, eu não quero ser a tal pessoa da sua vida. Esse papel eu deixo pra sua mãe. Parece que você – e o resto do mundo – esqueceram que se apaixonar é bem melhor quando vem sem cobranças. E também parece que isso não é mais suficiente. Se não for pra ser da minha vida, nem precisa ficar. Vai embora. E vocês perdem tantas chances com essa ideia estúpida de que uma pessoa (e apenas essa única pessoa) tem lugar aí, no seu cantinho particular. É como se você tirasse da minha boca uma promessa que eu nunca fiz. E depois? Quem é que vai pagar a conta do analista pras suas expectativas frustradas?

    Vai muito além de casamento, ou “pra sempre”, ou marca de aliança nos dedos. Só acho que esse cargo de chefia requer muita habilidade, responsabilidade e culpa. Sim, culpa. É como talhar a ferro e fogo uma marca detalhada na pele de alguém, que fica pelo resto da vida. Que não se perde facilmente. Não se perde, pra dizer a verdade. Ser a tal pessoa da sua vida é pisar de salto agulha na sua projeção equivocada de mim. Você, decepcionado. Eu, decepcionada por decepcionar você. É responsabilidade demais e não é que eu seja imatura ou infantil. Por mim basta que nos apaixonemos, ou que a gente tropece numa caminhada qualquer no parque e vá tomar um sorvete, ou que você me seja apresentado por aquela amiga e os olhares se cruzem. Só que você quer sempre mais que isso. É mais do que qualquer um pode dar.

    Quando você não tiver mais nada para fazer, passa lá em casa. A gente junta as escovas de dente e isso não precisa significar nada demais. Eu sou uma dessas mulheres-folhetim do Chico, meu bem. Só digo sim. O seu trabalho é me manter interessada e ser mais seu do que meu. Eu posso ser seu rito de passagem, mas nunca vou poder ser o seu título perfeito. A mulher da sua vida.

    Você correria o risco de ter seu crachá jogado no lixo, ou de desacreditar em segundos e terceiros amores. Não, eu não quero deixar que você se perca comigo e não perca o fôlego com outras. Nem quero que você se atreva a chorar copiosamente e escancarar portas de bares por minha causa. Outras virão. Outros verões também. E eu prefiro que você me identifique de outras formas e que me aproveite nas curvas, nas chuvas e nos momentos trôpegos do sexo. Se não quiser, eu te levo até o altar e te entrego de bandeja. Eu posso usar as suas camisas todas e deixá-las com cheiro de suor e perfume amadeirado. Eu posso até ser a sua mulher. Mas dispenso as credenciais.