• Aids: Como Ela Entrou na Minha Vida
  • Aids: Como Ela Entrou na Minha Vida


    por Leitor Anônimo

    A gente passa a vida toda achando que nunca vai acontecer com a gente. A gente ouve falar na TV, sabe dos artistas que se foram, do amigo da vizinha que se contaminou. Mas a gente não – esse tipo de coisa nunca acontece com a gente. E foi aí que a vida me ensinou mais uma lição.

    Sexo pra mim sempre foi uma das formas mais divertidas de curtir a vida. Sou hétero, mas também já saí com homens, com homem e mulher junto, com mais um monte de gente junto. Gostava da exploração, da novidade, do espontâneo e em nenhum deles cabia aquele plástico que encapava e tinha o poder de diminuir os prazeres tão latentes. Eu queria fazer direito, fazer gostoso. Queria pele com pele. Usei camisinha por diversas vezes, mas ela sempre me diminuía o prazer pela metade. Já cheguei a dispensar sexo por ter que usar camisinha. Sempre que bebia uns goles a mais ou que o tesão inundava o corpo e a mente, deixava o tal do plástico pra lá.

    Eu sabia dos riscos. Sempre soube. Não foi falta de aviso. Foi, como eu disse antes, a nossa mania de achar que somos imortais, que somos inabaláveis.

    Nunca vou saber exatamente o dia que peguei o vírus, mas desconfio. Tinha aquela menina que fazia parte da galera e que, há anos, mexia comigo. Era aquela coisa de olhar e sentir arrepio no corpo. Moça jeitosa, delicada, cheia de dinheiro, linda e intensa como eu. O sexo era aquela coisa inexplicável, de parar o mundo e pedir pra descer de tanto prazer. A gente transava no banheiro da faculdade, no bar, na rua, atrás do ponto de ônibus. Com ela, camisinha estava fora de questão. Era bom demais pra colocar um plástico entre a gente. Até que ela se mudou de cidade, sumiu, perdemos contato. Três anos depois, fiquei sabendo por amigos que ela tinha descoberto que estava com AIDS. Nunca vou saber se eu passei para ela ou se foi ela quem passou para mim. E isso hoje também nem importa.

    Fiquei sabendo da notícia e mesmo assim, não fui fazer o teste. Não queria abrir margem para uma constatação que podia acabar com a minha vida. Eu sempre fui do pensamento que “só tem AIDS quem faz exame.” A verdade é que estava tremendo de medo por dentro. Uns tempos depois, peguei uma gripe que me derrubou. Não sei ao certo se a culpa foi da imunidade baixa causada pelo vírus, mas não consegui mais lidar com a dúvida. Fiz o exame. O dia de pegar o resultado foi o pior da minha vida. Não dormi na noite anterior. Suava frio. Tinha pesadelos. Cheguei ao laboratório e uma moça me entregou o envelope sem nem ter ideia que, o que estava escrito lá dentro, poderia ser o fim pra mim. Abri e vi o que minha intuição já me dizia. Reagente. Estava contaminado. A coisa que achei que nunca aconteceria comigo, aconteceu.

    Fiquei dois dias paralisado. Não voltei pra casa. Fui pra praia e passei um dia inteiro olhando o mar. Não comi nada. Adormeci na areia, sozinho. Até então, nem uma lágrima tinha caído. Eu não tinha conseguido digerir a informação ainda. No dia seguinte, liguei para um amigo e contei a notícia. Só quanto pronunciei pela primeira vez as palavras “EU SOU SOROPOSITIVO” que a ficha caiu. Desabei de chorar. Sentei na calçada, sem forças. Amigos tiveram que ir me resgatar. Sentia um misto de culpa, de vergonha, de um medo mortal. A vida me dava pena. Olhava para todos os lados e pensava que o mundo continuava, que a vida continuava a mesma para todo mundo. Ninguém iria parar para sentir a minha dor, dor essa que era só minha. Senti uma humildade sem tamanho e só assim percebi como a gente é pequeno no mundo.

    Depois do choque inicial, veio a revolta. Revolta comigo. Revolta com a vida. Revolta com quem tinha me passado. Queria que os outros sentissem o que eu sentia. Eu não aguentava aquela dor sozinho. Passei um mês na balada, na loucura. Transei com dezenas de pessoas, sempre sem preservativo. Não contei pra ninguém. E provavelmente contaminei algumas pessoas, fato que me arrependo muito até hoje. Pra mim, a única coisa que me impedia de me jogar na ponte da Marginal era poder dividir a minha dor. Por isso fui, mais uma vez na vida inconsequente.

    Hoje já faz dois anos que soube do diagnóstico. Sigo minha vida “normalmente” dentro das possibilidades. Trabalho. Estudo. O mais difícil é a rotina dos remédios diários. Eles são muitos, são fortes, causam efeitos colaterais. E resistir é extremamente difícil. Hoje entendo aqueles que largaram o tratamento. É duro ter que continuar tomando uma coisa que sabe que vai te dar cólicas, diarréias, manchas na pele, perda de memória, urticária, mudança na hidratação da pele, gosto metálico na boca. Todo dia. Diversas vezes por dia. Minha única motivação é o medo diário de morrer.

    Contei pra pouca gente – amigos, familiares mais próximos, ex-namoradas. No trabalho ninguém sabe. A lei garante o direito de privacidade aos soropositivos que não querem falar sobre sua a doença. Nunca mais transei sem camisinha e nem deixei de contar sobre a minha condição para uma possível parceira. Muitas delas somem. Têm medo mesmo sabendo que a camisinha é totalmente eficaz na prevenção do contágio. Eu não as julgo, talvez faria o mesmo por falta de informação e pelos tabus que rondam a doença. Hoje transo muito pouco. Quase nada, pra falar a verdade. Ainda não consegui superar a repulsa que o sexo me causou depois que descobri que tinha sido contaminado. Talvez isso passe algum dia. Ou não. E hoje penso que ironicamente a camisinha que tanto odiava, hoje é a única coisa que me permite ainda ter uma vida sexual, mesmo que rara. Minha rival hoje é minha aliada.

    A doença me fez crescer. Me fez amadurecer na marra. Me ensinou disciplina, auto-controle. Hoje tenho arrepios só de ouvir histórias de pessoas que transam sem camisinha, como eu fazia. Sei que conselhos nem sempre funcionam – eu mesmo sempre fui aconselhado e só aprendi quando caí de cara no chão – mas se pudesse dar uma informação valiosa para os que são saudáveis, seria que sexo nenhum, por mais gostoso que seja no momento, compensa uma vida inteira transformada. Hoje, somente agradeço. Agradeço a chance de estar vivo. Agradeço cada um dos dias porque sei que eles são presentes. A vida não para. E a luta continua – eternamente.

    Para fins de direito de imagem, as fotos usadas nesse post não são de minha autoria e os autores não foram identificados.